Troncoman

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Sérgio Troncoso

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Transparência SP: PIB paulista perde mais de R$ 128 bilhões

Transparência SP: PIB paulista perde mais de R$ 128 bilhões

segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Falta de política de desenvolvimento no Estado provoca lenta decadência do PIB de São Paulo. Minas e Nordeste ganham espaço na economia brasileira nos últimos 13 anos.
do Transparência SP
Em 1995, a economia paulista representava 37,3% da economia brasileira. Em 2002, 34,6% e em 2008 caiu para 33,1%. Estes dados podem ser obtidos através do levantamento da evolução do PIB (Produto Interno Bruto) Estadual feito pelo IBGE.
Em outros termos, a perda de São Paulo chegou a R$ 128 bilhões, um orçamento público paulista anual inteiro. A perda foi generalizada, atingindo todos os setores econômicos: na indústria (-10,6%), no setor de serviços (-2,2%), na administração pública (-1,8%) e na agropecuária (-2,5%).
A razão dessa perda tem raízes no processo de desconcentração da indústria e na guerra fiscal dos Estados, mas também na falta de um projeto de desenvolvimento para o Estado de São Paulo, um projeto que buscasse potencializar as vocações das diferentes regiões. Durante esse período, os governos que comandaram o Estado de São Paulo implantaram uma política de orientação neoliberal. Inimigos do desenvolvimento econômico e social, privatizaram um patrimônio público de mais de R$ 80 bilhões.
Diversos são os exemplos da ausência de uma política desenvolvimentista para o Estado. Um deles: com as privatizações, boa parte dos lucros das empresas vendidas foi enviado para as respectivas matrizes, deixando de  ser reaplicado no Estado.
Mais ainda, empresas privatizadas têm significado mais desemprego e maior precarização do trabalho, sobretudo através das terceirizações.Com a privatização e venda de instituições públicas financeiras, o Estado de São Paulo também vem enterrando qualquer política de planejamento e financiamento de longo prazo do desenvolvimento econômico.
A política de “ajuste fiscal permanente” também reduziu investimentos na infraestrutura de transporte público metropolitano, na habitação, no saneamento, na educação e nas demais áreas sociais, tornando o Estado e suas principais cidades menos atrativos.
A ampliação da antecipação (substituição) tributária do ICMS e a multiplicação de pedágios, os mais caros do país, têm ampliado o custo paulista e a carga tributária bruta estadual, desestimulando investimentos no Estado.
A falta de uma política de desenvolvimento que busque articular de forma massiva as diversas instituições públicas de ensino e pesquisa e as iniciativas privadas de inovação produtiva, em todos os segmentos, vem representando um grande disperdício para o enorme potencial de desenvolvimento do Estado.
A extrema concentração das oportunidade de emprego na capital e num raio de 100 km de distância, sem que o poder público estadual incentive a desconcentração do desenvolvimento, têm levado a “soluções de mercado” por parte das empresas, que abandonam a Região Metropolitana de São Paulo em busca de outras regiões, normalmente em outros Estados.
O sul de Minas, o Mato Grosso do Sul e o norte do Paraná têm sido o destino recorrente destas empresas. Uma situação específica reflete esta falta de política para a desconcentração do desenvolvimento econômico do Estado: por que todos os órgãos públicos estaduais, de todos os poderes, estão localizados de forma dispersa na capital paulista?
A queda da participação do PIB paulista mostra, portanto, não apenas o resultado da ação política dos outros Estados – como insiste em lembrar o governo paulista e a mídia -, mas também o custo do “ajuste fiscal permanente” e a consequente inércia dos governantes do Estado de SP.
É bom ressaltar que a queda do PIB reflete, na prática, uma menor atratividade econômica para novos investimentos, menor participação na arrecadação de impostos, nível de vida mais baixo, dificuldades na geração de novos emprego e  dificuldades na expansão dos serviços prestados pelo poder público.
Analisando a evolução do PIB Estadual no Brasil, o Sudeste perdeu R$ 94 bilhões, perda esta que se concentrou em São Paulo. O Rio de Janeiro ampliou sua participação no PIB Nacional, passando de 11,2% em 1995 para 11,3% em 2008 (+ R$ 4 bilhões). Minas Gerais também apresentou elevação expressiva na sua participação no PIB Nacional, passando de 8,6% para 9,3% (+ R$ 20,7 bi). O Espírito Santo passou de 2% para 2,3% (+ R$ 9,5 bi).
O maior ganho em participação na economia nacional é na região Nordeste que cresceu 1,1% e ganhou R$ 32,4 bilhões, com destaque para o Maranhão (+ R$ 11 bilhões) e para a Bahia (+ R$ 8 bilhões).
Em seguida, vem a região Norte, com ganhos de R$ 26,7 bilhões, em especial os estados do Pará (+ R$ 10,9 bilhões) e Amazonas (+ R$ 3,55 bilhões).
O Centro Oeste ganhou R$ 24 bilhões, sendo que este crescimento foi “puxado” pelo Mato Grosso (+ R$ 21,57 bilhões) e Goiás (+ R$ 13,1 bilhões). A região Sul apresentou elevação de R$ 10,9 bilhões, com destaque para Paraná (+ R$ 6,57 bilhões) e Santa Catarina (+ 19,2 bilhões).
Além de São Paulo, outros dois Estados tiveram queda significativa na participação no PIB Nacional: Rio Grande do Sul (- R$ 14,8 bilhões) e o Distrito Federal (- R$ 16,2 bilhões).

 

domingo, 28 de novembro de 2010


Revista americana coloca ministro Amorim

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, figura na sexta posição em um ranking de “pensadores globais” divulgado neste domingo (28) pela revista Foreign Policy. A lista completa – encabeçada pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, e pelo bilionário investidor americano Warren Buffet - sai na edição de dezembro da publicação americana.

Celso Amorim, titular da pasta durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi o ministro a ocupar por mais tempo o cargo.

Segundo a revista, Amorim fez o máximo para transformar o Brasil – “antes visto como o eterno país do futuro” – em uma potência internacional durante os seus dois mandatos. E afirma que o ministro construiu uma política independente, ao adotar uma política nem tão contrária nem submissa aos Estados Unidos.

A Foreign Policy cita esforços da política externa liderada por Amorim nas conversas sobre o clima, em que adotou posição crítica aos países desenvolvidos, e o acordo sobre o programa nuclear iraniano costurado com a Turquia. De acordo com a publicação, esse acordo, apesar não ter alcançado sucesso, “colocou o Brasil no mapa”.

Também afirma que, enquanto sonha com uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil fortaleceu seu corpo diplomático e aumentou sua contribuição em missões internacionais de paz, como é o caso do Haiti.

Segundo a Foreign Policy, Amorim provou que é possível ter, como ele mesmo disse recentemente, “uma política externa humanística, sem perder de vista os interesses nacionais”.

A lista completa pode ser vista no site da Foreign Policy, que ainda traz uma entrevista com o ministro brasileiro.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Surreal - Carlos Alberto Pessoa Rosa

Surreal

Fazer poesia
é como enfiar agulha no vento
abotoar a chuva
procurar mel no fundo do mar
pescar abelhas nos rios de água doce
enviar suspiros às luas de Vênus
fazer poesia
é namorar as intimidades do delírio


Carlos Alberto Pessoa Rosa

Amor líquido - MÁRCIA CAVENDISH WANDERLEY

Amor líquido



Um amor líquido me tantaliza.

Sua presença sólida me paralisa.

Escorre de meus dedos, é chumbo quente,

queima,

e deixa para sempre a marca

do ausente.




Amor líquido II



Um amor líquido escorre por meus dedos,

penetra em meu corpo lentamente,

e vai

até a fonte do meu bem.

Um amor chacal me prende em suas patas,

com garras afiadas rasga a fonte do meu mal.

Com ele atinjo meu prazer total.



MÁRCIA CAVENDISH WANDERLEY

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A lenda de João Ramalho

Do livro "Aconteceu no Velho São Paulo, de Raimundo de Menezes, Coleção Saraiva, 1954. Do livro "Aconteceu no Velho São Paulo", de
Raimundo de Menezes, Coleção Saraiva, 1954de
Raimundo de Menezes, Coleção Saraiva, 1954Raimundo de Menezes, Caraiva, 1954)
t                                          
Quem era Ramalho
   Quando Martin Afonso de Sousa aportou a São Vicente, pelas alturas de 1532, foi recebido, para sua surpresa, por dois patrícios que aqui já se encontravam, havia longo tempo: Antônio Rodrigues e João Ramalho. De Antônio Rodrigues, muito pouco se conhece. Apenas que se casara com uma filha de Piquerobi, o cacique de São Miguel de Ururaí, com quem teve muitos filhos.
    E sobre João Ramalho? "Judeu degredado, para uns; simples náufrago casual, para outros; precursor de Colombo na América, segundo frei Gaspar da Madre de Deus; filho da casa Real, di-lo Pedro Taques; uma e única pessoa com o bacharel de Cananéia, na opinião de Cândido Mendes; boçal e rude analfabeto; personagem pelo menos iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho."    Na verdade, João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária. Era truculento, despótico, dominando pelos modos desabridos. Em conseqüência, não havia quem não o temesse.  
Além, muito além
daquelas serras 
    O núcleo de Santo André, assim chamado em memória ao padroeiro da vila, foi atraíndo outros forasteiros. A seleção não podia ser das maiores. Apareceu gente de toda espécie: bons e maus, estes últimos em maior número do que aqueles. Tendo brotado na beira do sertão, ficou conhecido como Santo André da Borda do Campo.
     Uma delas, no meio de tantas, lhe mexeu com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, Bartira vinha a ser a filha do cacique Tibiriçá. Era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou as demais e ficou com ela. Tornou-a predileta. O chefe da tribo gostou. Ter um branco como genro era uma grande honraria... O núcleo de Santo André
       Como seria, naqueles tempos primitivos, Santo André da Borda do Campo? "Naturalmente, tinha um aspecto selvagem. A terra era selvagem, os casebres de taipa-de-mão, cobertos de sapé, selvagens; as mulheres mestiças, mal enrodilhadas em panos de algodão, de fisionomias endurecidas pelos trabalhos incessantes, seriam, também, selvagens.
     "E os homens, na sua rudeza incomparável, barbudos e desataviados, possivelmente vestidos de pele, por toda parte alçando o perfil de lince, seriam, entre todos os seres, entre as próprias feras, os mais temerosos e os mais selvagens."
     Mas não tardou que o pequenino arraial viesse a receber o título honroso de vila, passando o seu fundador a ser apontado com o título mais honroso ainda de "Alcaide Mor e Guarda Mor do Campo".
    Foi nesse tempo que, por ali, apareceu o viajante alemão Ulrico Schmidel, que andava correndo mundo.
     Tinha um tipo esquisito. Sofria de delírio ambulatório. De Assunção, viera a ter em São Vicente. De São Vicente foi andando. E andando, andando sempre, quando viu, estava no meio de gente branca. Era ali Santo André. Cedamo-lhe a palavra:
     "Afinal, chegamos a uma aldeia habitada por cristãos, cujo chefe se chamava João Reinvelle (sic). Felizmente, para nós, andava ausente, pois o arraial tinha-me cara de ser um covil de bandidos. Partira Reinvelle (Ramalho) para ir com outros cristãos que habitavam uma povoação chamada Vicenda (São Vicente), a fim de, com eles, concluir um tratado.
     "Apenas lhe vimos o filho, que nos recebeu bem, embora nos inspirasse muito mais desconfiança do que os próprios índios. Deixando este lugar, rendemos graças ao céu por dele havermos podido sair sãos e salvos."
     "Apesar de tudo, João Ramalho "era o homem mais poderoso da região, mais do que o próprio soberano: havia guerreado e pacificado a província. reunindo cinco mil índios, enquanto o rei de Portugal só reuniria dois mil".
    No ano de 1553, Santo André da Borda do Campo viveu o ponto mais alto de sua vida florescente. Então, surgiram os primeiros jesuítas: Manuel da Nóbrega e Leonardo Nunes.
     O segundo ficou horrorizado com o que presenciava: a mancebia dos portugueses com as índias e o cativeiro dos índios. Aquilo lhe pareceu pior que Sodoma e Gomorra. E não teve dúvidas em excomungar João Ramalho. João Ramalho achou ruím... E começou a luta, uma luta de vida e morte.
     Uma manhã, a coisa tomou aspecto muito sério. O padre, tendo ido dizer missa na igrejinha do povoado, viu entre os presentes João Ramalho e mandou expulsá-lo do templo. Foi a conta. Saiu um sarilho de todos os diabos. Os filhos de João Ramalho [que não eram poucos] resolveram tomar um desforço. Lá apareceram, armados de trabuco, dispostos a matar o jesuíta corajoso.
     E foram entrando... Na frente, André, o mais velho. Depois, os outros: Vitório, Antonio, Marcos, João... Em casa, ficaram apenas as meninas: Joana, Margarida, e Antônia...
     Quando Bartira soube de que planejavam os filhos, foi atrás, e meteu-se no meio, desarmou-os, fê-los retroceder... Foi água na fervura. Desistiram do seu intento. E só assim escapou com vida o padre Leonardo Nunes.
    A coisa era desse feitio, naqueles áureos tempos, na primitiva Santo André da Borda do Campo. Tudo se resolvia a Trabuco. No princípio, João Ramalho deu aos padres muita dor de cabeça, e por um triz não quebrou a pau a dita cuja de Leonardo Nunes, o padre intrujão.
    Com os anos, tudo foi mudando. O belicoso João Ramalho já não era o mesmo das primitivas eras. Foi perdendo aquela arrogância, aquele jeitão distorcido...
     Os filhos, sim, os mamelucos da sua numerosa descendência, aqueles primeiros e desenvoltos paulistas, tornaram-se o terror das cercanias. E deram trabalho medonho... Foi um tempo quente.
     Já nessa época, São Paulo de Piratininga progredia, absorvendo completamente a vila que ficara atrás. Mem de Sá determinara que Santo André se extinguisse e todos se mudassem para São Paulo.
     O próprio João Ramalho acabou por concordar. E, para contentá-lo, nomearam-no capitão-mor de São Paulo. Era uma maneira jeitosa de atraí-lo.
     Mas ele, a tempo, descobriu o golpe. Desiludido, não desejou ficar por aqui. Resolveu abandonar o Planalto e ir morar longe. E foi habitar uma cabana rústica no vale do Paraíba. Hospedou-se em casa de Luís Martins.
     Estava velho e cansado. Apesar de tudo, embora na quadra dos setenta anos, não tinha uma cã [cabelos brancos] na cabeça nem no rosto, e costumava andar nove léguas a pé antes de jantar...
    Um dia, naquele 15 de fevereiro de 1564, um grupo pacífico de homens foi procurá-lo na sua casinhola. João Ramalho recebeu-os com certo embaraço. Que queriam dele? Mandou-os entrar.
Um alemão assustado
Ramalho escomungadoA mulher de Ramalho
decidiu a questão
Um dia depois do outroO fim da vila na
borda do campo
Ramalho vereador
     Não havia banco para tanta gente... Ficaram de pé, e de pé falaram. Era uma comissão do Conselho Paulista. Vieram comunicar-lhe que a gente de Piratininga o havia eleito para vereador de sua Câmara.
A hora do troco
     Ramalho ouviu tudo com a maior atenção. Seu olhar parecia andar por muito longe, distante mesmo... Lembrava-se, talvez, das ingratidões de que fora vítima.
    Recordava-se das humilhações sofridas. E no mesmo instante, mal sopitando a revolta tardia, alçou o rosto, e achou que chegara o momento azado para a desafronta. Solene, pausado, com um tom superior, retorquiu, altivo:
     "Não aceito. Vivo bem no meu exílio. Pra que voltar? Além disso, estou velho: sou um homem que já passou dos setenta anos... Digam ao Conselho que João Ramalho declina da honraria, e prefere ficar onde se encontra: prefere acabar seus dias entre os contrários do Paraíba, na terra dos índios." 
     E deu-lhes as costas. Um a um, foram saindo. O velho dominador tinha razão: "não nasceu para vereador de um mísero burgo, aquele que sempre foi um rei da floresta.
    Naquele 25 de dezembro de 1562, sofreram os índios um rude golpe. A notícia espalhara-se rapidamente. O cacique Tibiriçá estava passando muito mal. O padre Anchieta, ao seu lado, empenhava-se em suavizar-lhe os últimos momentos. Havia muito, vinha ele sofrendo as câmaras de sangue. E com a avançada idade que atravessava, aquilo mais lhe torturava os derradeiros estertores...
     A indiada, cá fora, não se conformava e chorava. Chorava aos gritos angustiados. E pela aldeia rolava aquele lamento surdo e inquietante. Os tambores, lá longe, ecoavam. Logo mais, a nova melancólica caiu como um raio. Tibiriçá morrera! O Martin Afonso [nome cristão de ele adotara] deixara de existir. Piratininga inteira vibrou. Os índios e os padres. Desaparecia um dos seus melhores amigos.
    À tardinha, realizou-se o sepultamento. Um sepultamento com toda a pompa. Compareceu todo o mundo. João Ramalho e sua mulher, Bartira, batizada com o nome de Isabel, seus numerosos filhos, seus netos, todos os seus descendentes, os jesuítas, os indígenas, chorando... Seu corpo foi levado para o colégio São Paulo e ali sepultado. Era uma deferência das maiores.
     O padre Anchieta, em carta escrita a 16 de abril de 1563, contava, então, o que acontecera:  "Foi enterrado na nossa igreja, com muita honra, acompanhando-o todos os cristãos portugueses com a cera de sua confraria.
     "Ficou toda a capitania com grande sentimento de sua morte pela falta que sentem, porque este era o que sustentava todos os outros, conhecendo-se-lhes muitos obrigados pelo trabalho que tomou em defender a terra, mais que todos, acho que nos devemos nós os da companhia e por isso determinou dar-lhe em conta não só de benfeitor, mas ainda de fundador e conservador da Casa de Piratininga e de nossas vidas.
     "Fez testamento e faleceu com grandes sinais de piedade e fé, recomendando à sua mulher e filhos que não deixassem de honrar sempre a verdadeira religião que abraçaram."
    Quem mais sentira a morte de Tibiriçá fora seu genro, aquele barbaçudo e intrépido João Ramalho. Regressara, depois do enterro, ao seu retiro às margens rumorejantes do Paraíba. Parecia que a vida perdera para ele a razão de ser, seu encanto maior. Talvez a idade avançada, talvez os dissabores enormes... E meditou muito longamente sobre a morte.
Morre Martim Afonso
Tibiriçá (o cacique)
O repórter Padre Anchieta
   O velho João Ramalho tratou de preparar-se para enfrentar o momento fatal que haveria de vir, mais dias, menos dias. Mandou chamar à sua presença o tabelião Lourenço Vaz, naquele 3 de maio de 1580. Conversaram os dois longamente.
     Soube-se apenas que, no mesmo dia, o funcionário regressava à casa do ex-rei do Planalto, armado de enorme livro e com a sua pena de pato. Acompanhavam-no o juiz ordinário Pedro Dias e quatro testemunhas. Vinham solenes e carrancudos. 
     E João Ramalho ditou seu testamento. O documento famoso ficou transcrito nas notas do tabelião da Vila de São Paulo. Narrava toda a sua vida, uma vida novelesca e cheia de altos e baixos. Frei Gaspar da Madre de Deus revelou mais tarde que possuía uma cópia do documento original, mas o certo é que pouquíssimas pessoas manusearam o testamento tão discutido.
    Capistrano de Abreu [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo], escrevendo a respeito, deu sua opinião valiosa: "fora de dúvida está que João Ramalho foi um dos colonos mais antigos; preferiu o planalto à beira-mar, fez-se respeitado pelos indígenas, entre os quais granjeou numerosa prole.
     "Os hábitos, adquiridos em decênios de vida solta, incompatibilizaram- no com os jesuítas, de cujas crônicas saiu mal notado. Muito deu que falar o seu testamento, do qual sonsamente deduziu frei Gaspar da Madre de Deus que fora ele o verdadeiro descobridor da América; o documento não foi visto só por frei Gaspar, mas até agora não reapareceu."
    João Ramalho morreu tempos depois. Deixou uma descendência colossal, gerando os primeiros paulistas:
  • 1) Beatriz Dias, que foi casada com Lopo Dias, natural de Portugal;
  • 2) Francisco Ramalho Tamarutaca, que foi casado três vezes, sendo a primeira e terceira com Francisca e Justina, índias;
  • 3) Antônio de Macedo, casado;
  • 4) Vitorino Ramalho, casado, que foi assassinado pelos índios Tupiniquins, nas imediações da Vila de São Paulo;
  • 5) Joana Ramalho, casada com Jorge Ferreira, que foi, em 1556, locotenente do donatário da Capitania de Santo Amaro, pertencente a Martim Afonso, filho de Pedro Lopes de Souza. E outros mais...
    Um lugar perdido no tempo
         Nas margens do Guapituba, que flui para Piratininga, cerca de uma légua na atual vila de São Bernardo, o viajante debalde procura um trecho de velho muro que lhe recorde este baluarte do alcaide-mor da Borda do Campo.
         Como se fora edificada na areia movediça, onde um sopro de desolação tudo subvertera e apagara, nem mesmo a tradição mameluca se salvou na memória dos raros habitadores destas paragens.
         É que as cidades também se apagam na vida, como se apagam na iniquidade dos homens.
    Santo André - já asseverou Teodoro Sampaio [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo] - como um ninho de escravismo e toca de turbulência, desapareceu sem deixar vestígios, como se, de vez, a arrasara um braço exterminador.
O vale da sombra da morte
Paulistas de quatrocentos anos
     Um dia, andejando sempre, galgou a serra de Paranapiacaba [subida de Santos ao planalto paulista] e veio bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá, com quem fez boa amizade.
     O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar. Aquilo ali estava cheio de "índias mansas, daquelas índias passivas e ofertantes, que andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém".

HORIZONTE - FERNANDO PESSOA


O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
... As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

G-20 dá aval para país controlar entrada de dólares especulativos

12/11/2010 - Brasil pressionou por introdução de cláusula, mas, até agora, só elevou IOF

do Monitor Mercantil

O comunicado assinado pelos líderes do G20 admite o uso de controle de capitais por países emergentes que enfrentem a valorização indesejada de suas moedas em razão do aumento do fluxo de recursos externos, exatamente o caso do Brasil.
O dispositivo foi incluído por pressão da delegação brasileira, com a intenção de legitimar medidas defensivas que começaram a ser adotadas pelo governo mês passado e que podem ser ampliadas, caso a pressão pela alta do real continue.
“Isso é absolutamente inédito”, celebrou o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, após a conclusão da cúpula.
A expressão controle de capitais, porém, não consta do texto, no qual foi substituída pelo eufemismo “medidas macroprudenciais”.
Mas, na prática, o efeito é o mesmo: permitir que países levantem barreiras contra a entrada indesejada de capital externo, especialmente o de caráter especulativo.
A medida defensiva tem o objetivo de amenizar a apreciação da moeda local e impedir que surjam “bolhas”, em razão da alta artificial do preço de ações ou commodities.
Até pouco tempo, o uso de controle de capitais era um anátema para o pensamento único que controla a economia internacional. Enquanto vários analistas progressistas ouvidos pelo MM nos últimos anos recomendavam esse caminho, os neoliberais insistiam em defender o fim das barreiras para o fluxo de recursos.
A situação começou a mudar, porém, após a crise asiática de 1997. Com a crise de 2008, que foi seguida, este ano, pelo aumento da liquidez internacional, com a consequente valorização das moedas dos países emergentes, cresce a pressão pelo controle de capitais.
Enquanto o Brasil lançou mão de medidas cosméticas, com o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre aplicações de estrangeiros em renda fixa, outros países já controlam a entrada de dólares especulativos.

Que fizemos com nossos filhos? por Eduardo Guimarães

Não importa se o seu filho é decente. Todos os pais somos culpados por essa juventude que nas últimas semanas chamou atenção do país para o nível de degradação moral e para os instintos perversos que passou a exibir em sua parcela “bem-nascida”, que, portanto, não tem desculpa como a dos jovens carentes para agir de forma anti-social.
Até por omissão, no mínimo permitimos que amigos ou parentes ensinassem aos filhos intolerância e preconceito. Assistimos impassíveis a pessoas que conhecemos começarem a mutilar na infância o caráter desses jovens que estão dando shows deprimentes de intolerância, de racismo, de xenofobia, de homofobia e sabe-se lá mais do quê.
Todos sabemos que essas barbaridades preconceituosas são ditas há muito tempo por pais dessa geração que agora dá esse espetáculo dantesco. Claro que tomavam cuidado de só dizer isso em festas fechadas ou em reuniões familiares. Todavia, quantas vezes, para não “criar caso”, assistimos a tais atitudes e condescendemos com elas?
Quem não tem aquele sogro, cunhado, genro, tio, vizinho reacionário, preconceituoso que, eventualmente, propõe separar o Sul-Sudeste do Norte-Nordeste, ou que se refere a nordestinos como “baianos” ou “paraíbas”, ou que diz, inclusive diante das crianças, que teve vontade de ser violento com um homossexual ou, no mínimo, de insultá-lo?
E o que fizemos? Dissemos às crianças ou adolescentes presentes que não deveriam imitar quem acabara de pregar condutas tão imorais? Para não nos incomodarmos, para não passarmos por “encrenqueiros” ou por “chatos”, talvez tenhamos até rido de piadas racistas, xenofóbicas ou homofóbicas diante de nossos filhos ou dos filhos de outrem.
Aí está o resultado. Nas redes sociais na internet pode-se encontrar legiões de milhares de jovens propagando tais sentimentos degenerados como se estivessem recitando poesias.
Para os que como nós, pais, pertencem a uma geração que acalentava ideais de liberdade, de igualdade e de fraternidade na juventude, é vergonhoso que tenhamos cedido às perversões que a maioria de nós combateu quando tinha a idade dessas pouco mais do que crianças que estão chocando o país com as suas condutas perversas.
O que fizemos com os nossos filhos? Será que imaginamos que aqueles que estão mais perto do poder – por suas condições sociais – nutririam, quando crescessem, esse desprezo tão estarrecedoramente completo pelos seus semelhantes?
Claro que grande parte dessa geração que está para chegar ao poder não compartilha as idéias pervertidas que temos visto se espalharem, mas, como dizia Martin Luther King, “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
É na omissão que nos tornamos todos cúmplices. Tanto os que deram tais exemplos aos seus filhos quanto os que não deram mas permitiram que amigos ou parentes dessem, e que não agiram para mostrar àqueles filhos que aquela conduta não poderia jamais ser imitada.
Talvez jogando a luz do Sol sobre essas criaturas gestadas nas trevas morais erguidas por pais irresponsáveis ganhemos tempo para salvar alguma coisa da mentalidade de uma juventude apática de ideais e de valores que só pensa em ganhar dinheiro e em se “posicionar” socialmente junto aos “vencedores”. Talvez, mas só talvez…

                                                                 Eduardo Guimarães

sábado, 13 de novembro de 2010

O GTE e o avião presidencial

Uma apresentação muito legal e desmistificadora de certas inverdades!

http://blog.planalto.gov.br/a-escolha-foi-sua-infografico-especial-sobre-o-aviao-presidencial/trackback/

Folha defende “singularidade” de São Paulo. Maria Inês Nassif explica

Os ideólogos do Império americano defendem a “singularidade” dos Estados Unidos e seu “destino manifesto” – por exemplo, conquistar a Califórnia do México.

É o que, mal comparando, a Folha tem feito na sua página de (uma só) Opinião.

Ontem e hoje, a Folha publica artigos que defendem a singularidade de São Paulo e seus ilustres ideólogos, como a estudante Mayara Petruso.

Ontem, um jornalista defendeu o preconceito.

Hoje, também no alto da pág. 3, uma advogada e professora de Direito Penal da USP (êpa ! êpa ! USP ?) defende a estudante Mayara.

A Folha já defendeu a “ditabranda”.

Agora, defende a “singularidade” paulista e o destino manifesto de sua elite separatista: ocupar o Brasil.

São argumentos com a profundidade de uma tigela de dar água ao gato.

Mas, ali naquela página costuma ser assim mesmo.

Muito diferente é o espaço que a Maria Inês Nassif ocupa no jornal Valor: sempre denso, profundo, original.

O Azenha reproduziu o artigo de ontem da Inês: clique aqui para ir ao Viomundo.

Inês explica o que acontece com São Paulo, ou melhor, com o repositório de ideias de sua elite: o PSDB.

O título já é para dar um susto na Mayara: “Voto do nordestino vale o mesmo do que o do paulista”.

O editor de Opinião do Otavinho vai ter um troço !

Diz a Inês: “A redução da desigualdade tem trazido à tona os piores preconceitos das classes médias tradicionais e das elites do país. Não apenas em relação às pessoas que ascendem da mais baixa escala da pirâmide social, mas preconceitos que transbordam para as regiões que, tradicionalmente miseráveis, hoje crescem a taxas chinesas. “

“A onde de preconceito contra nordestinos, por exemplo, é semelhante ao preconceito em estado puro jogado pelos setores tradicionais no presidente Lula e na própria Dilma Rousseff, durante a campanha – leia o “em tempo”:  … é o temor de que os ‘de baixo’ possam ameaçar … uma estabilidade que … é também de poder e status.”

(O Otavinho disse ao Lula que ele não podia ser presidente porque o Lula não sabe falar inglês.)

“A hegemonia paulista está em questão desde 2006, ” diz a Inês.

“O país é outro. Não se ganha mais eleição com preconceito – até porque o voto alvo do preconceito tem o mesmo valor do voto da velha elite.”

Viva a Inês !
 
                                          P.H.A.

Jovem Virgem - Salvador Dali

O racismo e uma falsa polêmica, sobre a obra de Monteiro Lobato

A polêmica aconteceu porque alguém viu algo, as explicações surgiram, e o debate aconteceu. Tudo sempre acontece dentro de um contexto de ações. Supondo que o ambiente escolar é um centro inteligencia e saber, ao menos um pouco acima da média, os professores e alunos haverão de se desencumbir das contextualizações necessárias à obra de Lobato. Complica-se, explica-se, e confia-se!
                                                                   Sérgio Troncoso

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cuide-se Bem - Zélia Duncan



Para a amada!

Petistas, Dilma, neopetistas e o poder

O que esperamos que Dilma e os neopetistas recém chegados ao eventual poder (alguns na realidade nunca o abandonaram) entendam, é que há um limite para as concessões que se fazem para o exercício do poder. A gente quer muita verdade, e um pouco de mentirinha a conta-gotas, gostamos de dinheiro no bolso e saúde prá dar, mas não prá vender.  Sabemos que há que se ter temperança, calma, e realismo, senão já estaríamos junto ao PSOL ou PSTU. Mas nunca esqueçam que nós somos o realismo fantástico das passeatas, das brigas em reuniões, movimentos, greves, sonho e realidade. Sempre nos dispomos a dar e levar porrada, só pelo sonho de estar construindo um país melhor, e  uma graninha à mais para a família, pois sabemos que o andar de cima não nos dá nada sem pressão.
É uma pena que eu não seja um bom escritor para explicar melhor, o porque ando de saco cheio (no blog mãe... vixe) de ver que tá cheio de neopetista metido a intelectual, "analisando" que agora Lula "entendeu isso", que Lula "entendeu aquilo", o PT vai fazer a opção “certa”. Pensam que o PT existiria se nós e Lula (vá lá... ainda) pensássemos como eles. Já vi até um cara dizer que Lula é contra greve (não foi bem isso que ouvi dele em Cubatão ano passado). Esses "entendidos" em PT, acham que agora quem vai mandar são os "petistas" assim ou assado, estilo frapê para elites. Eles não sabem quem é realmente o PT, não fazem a menor idéia o quanto está duro manter todo mundo parado, sem mexer com patrão, cumprindo o compromisso de governar, não vêem (e eu espero que Dilma veja) o esforço hercúleo que se está fazendo para cumprir um tiquinho só do sonho. Caso nos provoquem, nos desprezem demais, vão ter que agüentar quando o show dos movimentos populares começar a passar na frente deles, vão dizer que estão sendo sabotados, vão dizer que nós petistas de 30 anos, não entendemos o PT deles, que temos que “evoluir”. Esses bostas que não sabem o que é uma greve, uma mexeção, uma peãozada suada e cansada se esfregando, querendo coisas. São
apenas oportunistas que chegam para desfrutar o poder, e não tem o menor pudor de querer achar que carregam alguma bandeira petista. Se Dilma (e eles) não se cuidar, ou não cuidar um tiquinho de nós, o dragão vai começar a se mexer, e aí ela, mais todos os traidores, os da antiga (que eu sei que serão poucos), junto com esses "petistas" que nunca foram vistos no ombro a ombro das trincheiras, vão ter que segurar, lutar, punir, despedir, prender e talvez até matar, mas saberão qual é o espírito e da luta que construiu o PT, que aceitou a liderança de um Lula. São aqueles que sempre se levantam, verdadeiramente incompreensíveis para amigos do conforto que o poder dá, principalmente para esses neófitos, que embarcaram na canoa num par de anos para cá, que pensam que conhecem o PT, que pensam que contam alguma coisa, que muitas vezes nos chamam de “radicais”. Não sabem que até para fazer a peãozada servir de massa de manobra, precisam de outro peão para o serviço sujo, acham que podem usar e depois nos guardar no armário, escondidinhos, até precisarem de novo. Pensam também que o PT é uma construção meramente racional, gostam desse PT bonzinho, cheio de carpideiras caras, que ficou mais igual aos outros para governar, gostam porque o poder dá benesses, status, e até dinheiro para alguns.
Eu e muita gente que ainda está por aí, vimos a viração desde o início, não de cima dos palanques, mas lá de baixo, misturando os suores e os humores, e garanto que se nos jogarem para a oposição, nós iremos, não precisamos de escrôtos para nos agarrar, não precisamos de botas para lamber, e prescindimos de qualquer reunião em salas acarpetadas em torres de marfim. Nós ficaremos em pé no asfalto, ou nos sentaremos no chão de qualquer lugar, e faremos quantos PTs forem necessários. Eles não nos conhecem!
                                                  Sérgio Troncoso

Sobre neoliberalismo e pós pós-modernidade.


   Montei esta reflexão mal pensada em função de uma pergunta do colega Hermeneuta num texto do amigão Zé da China a respeito da arquitetura sob a estética da era pós-moderna, que para mim está estreitamente atrelada ao chamado neoliberalismo na economia e todo pensamento autoritário que lhe dá sustento no meio social.
   Caro Hermeneuta, vivo pensando no dia em que viveremos a era da pós pós-modernidade. Talvez já estejamos vivendo em seu início, mas esse movimento ainda não está claro, pois há muitos reacionários no plantão, que insistem em manter o pé no pedal do acelerador do câncer neoliberal. Sou otimista?
   O esdrúxulo termo “pós-moderno” apareceu mais ou menos na mesma época que outros termos igualmente imprecisos, reacionários e arrogantes que vieram junto com a onda neoliberal à partir do final dos anos 80. Termos que vieram tentar dar sustentação e base teórica à arrogância neoliberal.
   O auto proclamado neoliberalismo é apoiado em economistas e filósofos de quinta categoria, pois não oferece respaldo teórico prestável ao próprio capitalismo que ele se propugna a praticar e defender. Economicamente ele substitui noções de comportamento caras ao capital por noções totalmente carentes de sentido para o próprio capitalismo. Por exemplo, propõe lucro maximizado pelo custo mínimo, sem levar em consideração o estreitamento de mercado que ocorre ao se super pressionar a economia pelo lado do custo, com a diminuição correspondente da demanda que isso ocasiona ao se apertar os fornecedores, produtores de bens primários e pequenos proprietários até a sua falência, com as implicações sociais e “consumistas” subsequentes. Incita a velocidade nas trocas de mercadorias, sem levar em consideração a visão de custo de materiais, de insumos, do impacto ecológico e social das decisões, ocasionando ganhos imediatistas, porem sem fôlego econômico permanente devido a conseqüente degradação dos meios de produção. É mais concentrador que o capitalismo de cunho keynesiano ao desestimular as políticas compensatórias do Estado, para as populações de baixa renda que não conseguem se ajustar à velocidade do mercado neoliberal, deixando para trás enormes bolsões de pobreza e seus problemas recorrentes. Retira os marcos regulatórios de controle fiscal e consequentemente social do Estado sobre os bancos e grandes financeiras deixando que ocorra a criação de renda sem lastro com a multiplicação da moeda do papelório inflado artificialmente, estimulando o anti empreendedorismo e o ganho de capitais especulativos sem risco, ou seja, o capitalismo de vagabundos. Colocam regras de proceder e de mercado que servem para os outros, mas não para neoliberais endinheirados cumprir. Aqui em nossa terrinha, bobão elitoso brazuca adora declarar-se “liberal”. Sonha com o capitalismo preconizado por Adam Smith, que talvez ainda exista em alguma ilha de “livre competição pelo mercado”. Só que no final das contas, no capitalismo realmente existente o que vemos são quatro mega conglomerados controlando toda a indústria musical do mundo, ricos impondo barreiras e tarifas aos produtos dos pobres, oligopólios praticando dumping, guerras de rapina para saquear petróleo dos outros. Ao ser confrontado com esses fatos, o máximo que o neoliberal aceitará é que no “verdadeiro” liberalismo essas coisas deverão ser “corrigidas”,  (parece dirigente soviético falando sobre o fim da “ditadura do proletariado” e a vinda da democracia comunista).
   Para que esse sistema (?!) fosse possível, uma “novilíngua” haveria que ser criada. Tudo que atrapalhasse a lógica utilitarista deveria ser desconstruído em prol do “pensamento único”. Vai daí que trabalhador começou a ser ofendido com a pecha de “colaborador”. Substitui-se o cidadão pelo “consumidor”. Duas meias verdades passam a valer como uma verdade inteira. O indivíduo passa a ser o foco principal, tudo que leva o termo “social” tem que ser demonizado. “A soma dos nossos egoísmos vai dar condições de avanço econômico para todos” (Milton Friedman), aliás, tudo se resume a satisfação econômica, todo o resto das aspirações humanas passam a ter importância secundária. Cria-se admiração pelo “workaholic” uma figura que esbanja falta de imaginação, trairagem com os companheiros de trabalho e normalmente baba ovo de chefes e patrões. O negócio é trabalhar muitas horas sem reivindicar nada, afinal segundo as leis do mercado malandro, ganhamos exatamente o que merecemos. Vi na TV um desses vagabundos baba ovo dizendo que professores ganham mal porque são muitos. Pode? E quando eles forem poucos, os 6 bilhões de seres que caminham na terra irão..., deixa prá lá. O “ter” passa a ser valorizado em detrimento do “ser”. Nas artes, a arte moderna, um verdadeiro rompimento estético com o que havia anteriormente, foi substituída pela arte pós-moderna, uma arte que atende apenas à lógica mercantilista e utilitarista, sem levar em consideração um maior engajamento com a estética do universo sócio político ou econômico e sequer com a vida das pessoas comuns. Toda arte é pensada em seu potencial de venda, e lógicamente se dá um empurrão via propaganda e mídia para que as pessoas “gostem das coisas certas”. Arte com qualquer engajamento crítico ou político é desestimulada. A sociedade do espetáculo, dos gênios sem livros, das prima-donas e palhaços sem cultura se instala com mais força do que de hábito na história humana. O Estado é demonizado, os donos de empresas e ricos em geral (o Ronaldinho vale) são os que sabem o que é melhor para todos. Aparece um idiota de olhinho puxado  (cuidado aí Liu, rsrsrs) e diz que a história acabou...
   Talvez a humanidade não sobreviva ao esgotamento de recursos ora preconizado pelo neoliberalismo predador e “consumidor”. Talvez a nossa história acabe mesmo. Agora sou pessimista? Afinal, o crescimento populacional levou à sociedade global problemas concretos de degradação do bioma terrestre. Coisa mais concreta e grave que disputas ideológicas entre grupos de pessoas ou mesmo países. Há que se encontrar a práxis e sua ideologia de sustentação para uma solução de continuidade biológica e social do ser humano globalizado e banalizado. Certamente o neoliberalismo deixou bem claro sua característica de “Titanic” desgovernado, não é solução para o problema sócio econômico de natureza global da humanidade, ao contrário, ele o causa e agrava. Há que se pensar numa forma de socialismo democrático, dinâmico, sem autoritarismo, que estimule a meritocracia na medida certa, respeitando a individualidade das pessoas sem desumanizá-las. Não nos esqueçamos que as sociedades e maneiras de produção praticadas no chamado “socialismo real”, também foram e são altamente poluidoras, injustas com o indivíduo e suas aspirações, e não conseguiram obter uma realidade  social e política aceitável (ao menos aos olhos deste escrevinhador, e quem quiser me convencer do contrário, pode tentar). É necessário que se abandonem velhas cartilhas que não analisam a atual realidade e ainda por cima querem que o mundo volte ao passado para depois se construir um futuro. Será preciso uma sociedade de defesa da cidadania, da educação e da técnica, com economia ecológica e sustentável. Isso exigirá uma radical mudança nas prioridades de produção, de educação, e das aspirações do ser humano. As ferramentas para o pensamento inédito existem, e as eventuais dúvidas de procedimento, podem e devem ser amparadas em pesquisas nos 100 mil anos de história do homo sapiens, basta pensá-las, construí-las e usá-las com sabedoria.
   O que consola é que como ensina o futebol, o jogo só acaba quando termina, e a nossa história ainda não chegou ao fim.
                                                                                        
                                                                Sérgio Troncoso

Paciencia - Lenine